Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil
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Professores de Direito Ambiental manifestam irresignação ante os termos do TAC do Diesel

S.Paulo, 5/11/2008. A Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil, entidade que congrega mais de uma centena de membros da Magistratura Superior em nosso país, debateu nos últimos dias o acordo firmado entre o Ministério Público Federal, a Petrobrás, o IBAMA, a Agência Nacional de Petróleo, o Estado de São Paulo, a ANFAVEA e as indústrias Agrale, Ford, Iveco, Mercedes-Benz, Scania, Volkswagen, Volvo, Toyota, Mitsubishi, Nissan, Peugeot Citroen, Fiat, GM, Caoa, Renault, MWM e Cummins. Este acordo, lavrado no bojo das ações 2007.61.00.034636-2 e 2008.61.00.013278-0, formaliza  que formaliza o descumprimento de uma norma democraticamente editada há seis anos pelo CONAMA, a Resolução 315/2002, que estabeleceu novas fases do Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores – PROCONVE.
O sentimento unânime dos professores que se manifestaram nesse debate foi de profunda irresignação diante do fato de haver sido chancelado um acordo que resultará na morte de milhares de pessoas por doenças de origem cardiorrespiratória decorrentes da quantidade extremamente elevada de enxofre no óleo Diesel distribuido no país.

            Manifestações por todo o país

José Rubens Morato Leite, Professor da Universidade Federal de Santa Catarina e que há poucas semanas lançou a 2ª edição do “Curso de Direito Ambiental Constitucional”, em co-organização com o Prof. Gomes Canotilho, da Universidade de Coimbra, colocou-se desde o primeiro momento contrário ao acordo firmado, pois viu nele um claro retrocesso e uma afronta à Constituição: “Trata-se de uma obstáculo ao mínimo existencial ecológico, relativamente a qualidade de vida da personalidade difusa e ao planeta”.
O professor paranaense Vitório Sorotiuk, da Faculdade de Direito Tuiuti, lembrou a lição de Hugo Nigro Mazili, para quem os órgãos públicos legitimados não podem dispensar direitos ou obrigações, nem renunciar a direitos, como acabou ocorrendo no TAC em referência.
Fernando Walcacer, professor da Faculdade de Direito da PUC-Rio, considerou “lamentável constatar o desprezo desses donos do poder com a saúde da população. Ainda bem que o direito difuso ao meio ambiente é indisponível... ou não é?”. O Professor Walcacer, aliás, já acompanhava há mais tempo a questão junto à Comissão de Direito Ambiental da OAB-RJ, tendo instado o órgão a manifestar-se, de forma contundente, a favor do respeito aos prazos ora "flexibilizados".
Guilherme José Purvin de Figueiredo, professor da Universidade São Francisco e coordenador geral da APRODAB, entende que “o objetivo da Resolução 315 do CONAMA, de reduzir o nível do enxofre no diesel”, tinha um único destinatário: “a população atingida pelo material particulado fino, causador de milhares de casos de doenças pulmonares e de óbitos todos os anos, como demonstram os estudos desenvolvidos pelo Prof. Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da USP”. Considerando que o TAC conduzido pelo MPF não aborda uma única vez a proteção da saúde da população, “a conclusão a que chegamos é que a população brasileira ficou desassistida na ação civil pública”. Assim sendo, desrespeitado o princípio do devido processo legal, “o TAC jamais poderia ter sido homologado pelo Juiz da 19ª Vara Cível Federal de São Paulo”.
A Prof. Isabella Franco Guerra, da PUC-Rio manifestou preocupação com “os rumos da luta pela qualidade de vida, pela efetividade da legislação brasileira e da democracia”. Lembrou que “grande parte da população brasileira desconhece o problema do diesel, o grau de poluição verificado nos grandes centros urbanos e os impactos negativos sobre a saúde humana. Se os consumidores adotassem a postura de exigir mais qualidade dos produtos, boicotassem o combustível inadequado , o Estado  teria que mudar de postura. Mas, o tímido exercício da cidadania no Brasil nos impõe
reflexões”. E conclui: “Acho que o problema do diesel merece além da nossa manifestação de repúdio, alguma ação para chamar a atenção dos brasileiros e motivar algum tipo de pressão pública”.
Tatiana Tucunduva Philippi Corteze considerou a celebração do acordo um absurdo revoltante, principalmente depois de todos os dados científicos e resultados práticos já comprovados pela Faculdade de Medicina da USP dos efeitos desse diesel na saúde da população.
A professora Érika Bechara, da PUC-SP, questionou enfaticamente o acordo: “Quer dizer que deverí­amos entrar em 2009 com o diesel S-50 e vamos chegar em 2014 com o diesel S-500? Quer dizer que a "sanção" aplicada à Petrobrás, Anfavea e outros pelo descumprimento do prazo (longo prazo, aliás...) estabelecido pelo Conama para adequação do combustí­vel e dos motores foi a dilação desse prazo?”.

            Posição oficial da APRODAB

Marise Costa de Souza Duarte, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, considerou “realmente lamentável” que o Ministério Público Federal “tenha firmado aquele TAC” e sugeriu que a APRODAB adotasse uma medida oficial, que em seu entendimento poderia ser “desde uma nota oficial manifestando a posição contrária da Associação até a interposição de uma ação judicial”.
De igual forma que a prof. Élida Séguin, autora do livro “O Direito Ambiental: Nossa Casa Planetária” e professora aposentada da UFRJ, Vladimir Garcia Magalhães, professor da Faculdade de Direito da Universidade Católica de Santos, também defendeu a divulgação de manifestação da APRODAB, “para defender a saúde humana e meio ambiente”. No entendimento de Vladimir Magalhães, “posicionar-e nestas situações com fundamentos técnicos jurídicos deve ser uma das ‘funções sociais’ da nossa entidade”.
A APRODAB foi a primeira entidade a lançar, juntamente com o IBAP, a ABRAMPA e o Instituto O Direito por um Planeta Verde, uma “MOÇÃO PELA IMPLANTAÇÃO DA FASE P6 DO PROCONVE NO DIA 1º DE JANEIRO DE 2009 ”. O texto da moção está acessível na sua home-page [
Leia o texto da moção. ] 

           Silêncio da grande imprensa

Fernando Walcacer, professor da PUC-RIO, manifestou sua estranheza com “o silêncio da imprensa carioca sobre a matéria. Como se a poluição do ar por aqui não fosse um problema. Salvo um ou outro artigo (candente) da Miriam Leitão, no Globo, o que se ouve é um silêncio tenebroso”. Este aspecto também foi observado por Isabella Franco Guerra: “Como ampliar o debate sobre o diesel e como pressionar os atores envolvidos para uma postura mais ética? Precisamos de um Estado que atenda ao bem comum e não a interesses econômicos de determinados grupos. A imprensa brasileira costuma noticiar assuntos de interesse público por uma semana,depois a questão fica esquecida, ninguém sabe o que acontece e os acordos são fechados por baixo da mesa. A continuidade da informação seria vital, pois o interesse público não pode ficar esquecido”. A professora Eldis Camargo, da Faculdade de Direito de Itu, atualmente atuando junto à Procuradoria da Agência Nacional de Águas, confessa seu pessimismo: “Poucas alegrias...tenho  verificado atualmente uma tendência ao retrocesso das conquistas que tivemos com os diversos normativos (e sua interpretação). Uma pena, pois sou fã de carteirinha de nossa legislação ambiental. Sinto que existe uma falta de conhecimento do Direito Ambiental, tal como ele se apresenta e deve ser lido e notadamente as alterações e mudanças que o tema provoca na área do Direito tradicional. Sinto, também, a falta de comprometimento  (educação) com o tema ambiental”.

Debate prossegue nas salas de aula

No Estado do Mato Grosso, o Prof. Patryck Ayalla registrou que “a mesma perplexidade que senti quando tomei conhecimento dos termos do TAC, e principalmente, da posição do MPF, foi compartilhada por meus alunos quando lhes disponibilizei o texto para discutirmos em aula nesta semana”.
A exemplo do Prof. Patrick Ayala, o Prof. Fernando Walcacer informou que também está estimulando a discussão do assunto entre seus alunos da PUC-Rio: “Uma de nossas pesquisas de iniciação científica, inclusive, ora sendo desenvolvida pela estagiária Mariana Carvalho, tem o foco nessa questão”.
Da mesma forma, em São Paulo, o prof. Guilherme José Purvin de Figueiredo dedicou as aulas de graduação ministradas na semana em São Paulo para explicar aos alunos o duro golpe perpetrado contra a saúde da população, em especial no meio ambiente urbano e para que, na condição de cidadãos, participassem do ato público promovido pela Fundação SOS Mata Atlântica na manhã do dia 5 de novembro na Avenida Paulista.


Reunidos em Assembléia Geral na cidade de Campos do Jordão, associados da APRODAB aprovaram moção em defesa da não-redução das competências da Câmara Especial de Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. A moção foi encaminhada a todos os Desembargadores integrantes de referida Câmera Especial e ao Exmo. Sr. Presidente do TJSP.